E o passado fica no passado
Desde pequeno a sociedade te impõe a fingir se preocupar com a vida alheia e tentar ser educado ao encontrar conhecidos na rua. Particularmente, odeio me forçar a demonstrar algum interesse por gente que não vejo a muito tempo. Certas coisas na vida precisam ser expugnadas e um claro exemplo disso são sujeitos que sairam do seu círculo de convívio.
Pode parecer falta de educação, mas não é. Fui educado sim, muito obrigado; uma educação católica e até mesmo rígida para os padrões da sociedade, mesmo assim eu não consigo demonstrar interesse em gente que simplesmente desaparece da minha convivência.
Ao esbarrar com criatura assim na rua, seja em ônibus, lojas, ou qualquer ocasião que a casualidade permita, minha atitude default é naturalmente achar um esconderijo seguro e torcer para que o infeliz não me veja, simples assim. Sério, já é quase uma fobia. Eu não quero que me encontrem, não quero encontrá-los e, caso os veja, finjo que nada aconteceu.

O problema é quando acontece a troca de olhares.
Quando teu olhar esbarra no do velho conhecido o impulso do ser humano é falar ao menos um “oi”. Disso eu não escapo, já é automático, eu falo mesmo não pretendendo. O foda é que quando você não vê a pessoa a bastante tempo – relativo pra várias pessoas, mas pra mim 6 meses de ausência na minha vida já é bastante tempo e eu rapidamente desconsidero o indivíduo – o assunto tende a não fluir, os interesses antigos, na maioria das vezes, não são mais os mesmos e os caminhos se separaram por simples formalidade do destino. O que tá no passado é pra ficar no passado.
Não tem conversa, não adianta. Você vai perguntar o que pra pessoa? Se ela tá bem? Clichê demais, eu não quero saber se ela tá bem, só quero que suma da minha frente o mais rápido possível. Falar sobre o passado é resgatar algo que não precisa, tanto que o que os unia se desfez, senão a pessoa ainda estaria ali, presente na sua essência.
Outra merda nisso tudo é que, inevitavelmente, a pessoa vai te julgar pelo que você é naquele exato momento. Provavelmente você tá mais gordo e mais feio e mais velho e sem paciência (meu caso), e o conhecido vai processar essas informações rindo mentalmente (eu sei que vai, eu faço isso quando encontro os outros), por isso é bom poupar essas etapas de desaprovação e partir logo pro tchauabraço o mais rápido possível.
Outra lei absoluta do encontro com pessoas do passado é que quanto mais tempo você ficar tentando puxar algum assunto relevante, mais constrangidos vocês dois ficarão. É BATATA.
Se for colega da época de escola, então, quero ficar o longe possível dessa gente. Sério. Abro o Orkut atualmente, vejo no que as pessoas do meu passado se tornaram e penso se elas acham a mesma coisa de mim. Sério, muita vergonha. Aqui no subúrbio do Rio de Janeiro é fácil se envergonhar do rumo que as pessoas seguem nessa fase crítica evolutiva adolescente-adulta. As possibilidades são poucas. Vamos a elas:
A bonitinha do colégio provavelmente virou funkeira e vulgar (perdão pelo pleonasmo); provavelmente ela ganha dinheiro em trabalhos de segundo escalão e sobe de cargo na FIRMA vendendo o corpo pro chefe e pagando boquetinhos atrás da mesa.
O baderneiro lá da oitava série (aquele que sentava junto dos amigos metidos a bandido na última fileira e só eram bons no time de handball em educação física) certeza que se envolveu com drogas e, com muita -MUITA- sorte, seu maior sucesso é ser chefe da boca de fumo mais próxima. Alguns já foram presos ou, na pior das hipóteses, queimados no pneu. Que Deus os tenha.
Aquela patricinha chata com voz aguda hoje em dia é secretária em alguma multi-nacional, ganha a vida atendendo telefonemas e fofocando com o porteiro na esperança de que algum dia ele a chamar pra sair. Sem esperanças na vida. Mesmo.
Tem também o núcleo evangélico da turma, aquele que sentava no canto direito da sala (lugares marcados sempre) e que hoje ganham a vida na igreja, trabalhando como obreiros, pastores ou até mesmo sendo líderes de sindicato respeitado no bairro, que extorque dinheiro da população em troca de serviços básicos e/ou influência com a prefeitura.
Meu grupo preferido é a turminha hard rock, que iam com camisas do Nirvana por baixo do uniforme e matavam aula pra jogar Counter-Strike na lan house atrás da escola; é aquela galera que fedia, sabe? O povinho da cara oleosa que se achava trevoso por gostar de Iron Maiden e postar foto de cemitério no Orkut (até hoje fazem isso). Esses caras hoje em dia, ou são desempregados e fumam maconha com mendigo, ou tiveram a sorte de nascer com a bunda virada pra lua e, graças aos pais, trabalham em algum setor não muito importante na empresa da família, movida pelo nepotismo desde que o avô morreu e repassou a herança.
Sinceramente, não me familiarizo em nenhuma das ocasiões e, você que tá lendo – como tem um ego muito grande – não vai se permitir encaixar em nenhum dos caminhos que sua turma do colegial seguiu. Você é perfeito e não se mistura, assim como eu.
O jeito é continuar fugindo de gente assim e sem olhar pra trás.
Mesmo quando o passado esbarra no teu ombro, pelos cantos da calçada.
Cara, o teu blog é incrivelmente foda!
Acho que faço a mesma coisa.. é horrível fingir interesse.
Mas também me sinto mal quando vejo que da “turminha do colégio” a menina que me batia todo santo dia (porque ao contrário do que acontece.. eu era uma das poucas pessoas brancas na sala) hoje vive de catar comida no lixo.. não dá pra se orgulhar disso ou coisa do tipo.. mas simplesmente dar um oi de impulso como você falou vai atrair o olhar vergonhoso que ela me dá sempre que me vê.. então é melhor fugir mesmo. (ai parece desabafo haha >< desculpe. rs)