Memórias de uma infância problemática
Se eu tivesse um poder, ele certamente seria ter uma memória de dar inveja a qualquer elefante. E isso não é só hipótese, já é fato.
Uma das coisas que mais me orgulho é de lembrar detalhes impecáveis sobre minha infância, desde os 2 anos e pouquinho, até algum tempo atrás (tenho 21, sou uma criança grande apenas [a mentalidade]). Acho que lembro de detalhes até mesmo antes dos 2 anos. Lembro perfeitamente de como era difícil andar e das vezes que eu enchia o saco da minha mãe pelo puro e simples prazer de chamar atenção.
Lembro também de como eu era uma criança imbecil. Ainda sou um pouco, mas naquela época eu era demais. Eu era uma daquelas crianças que se morresse, você não ia sentir diferença. Lembro que, lá pros 3 anos, minha maior diversão era ficar sentado no chão, atrás da cortina, esperando o vento bater nela e vir de volta no meu rosto. Bem mongolóide mesmo, eu era quase um vegetal.
As coisas foram piorando com o passar do tempo. Eu criava medos incríveis, coisas absurdamente inimagináveis se parar pra pensar hoje em dia. Um deles eu vou contar agora.
Foi algo que lembro até hoje e, provavelmente, me influencia bastante mesmo agora, burro velho.
Eu tinha medo de telefone. Ainda tenho, aliás. Mas antigamente era medo em negrito, sei lá, acho que do barulho que ele fazia. Me recordo de um episódio na escola, quando estávamos às vésperas do dia das mães, quando, em escolinhas tradicionais, as professoras arrancam fortunas dos aluninhos pra fabricar algum presente artesanal meia-boca pra senhora sua mãe – que provavelmente se resume a camiseta com marca da mão suja de tinta, ou então uma luva pra pegar tabuleiro no forno, ou até mesmo um avental com alguma frase escrota.
Pois bem, aquele ano, o presente da mamãe era uma agenda telefônica com a foto de seu filhão na capa SEGURANDO UM TELEFONE.
Isso foi um inferno na minha mente de 4 anos. Sério, eu chorava só de imaginar que eu ia chegar um telefone pertinho da orelha. A semana que confirmaram a atividade foi uma das piores da minha vida. O dia em que o fotógrafo apareceu na escola foi aterrorizante. Foi um câncer na minha existência.
Eu, na minha mente imbecil, fui pro final da fila que se formava no pátio da escola, na esperança de adiar aquele momento. Todos os alunos estavam felizes por poder serem fotografados etc, e eu lá no final segurando o choro. A pose pra foto era a pior possível: cada aluno deveria segurar o telefone (aqueles de disco ainda) e SORRIR. Aquilo era demais pra mim. Eu sequer imaginava como chegar perto do telefone, quem dirá segurá-lo e SORRIR.
Todos tiraram a foto, um a um, até que chegou minha vez.
Eu lembro que chorei. Não aguentei segurar aquela angústia. Chorei como nunca havia chorado na minha vida. Mas consegui me superar. Segurei o telefone bem longe do rosto; e o fotógrafo, com aquele dente de ouro, fazia refletir todo o meu trauma naquela situação. Eu tinha medo, eu tinha PAVOR de telefone. Não consigo imaginar minha reação se aquela merda tocasse comigo do lado.
Chamaram minha mãe na escola. Estraguei a surpresa do presente. Mas que se foda, eu tava preocupado é com a minha vida, tava preocupado em sobreviver àquela situação.
Com minha mãe segurando minha mão e tentando sair pra não aparecer na foto, consegui chegar o telefone à 5cm da minha orelha direita. E essa distância foi meu recorde, pelo menos até meus 9 anos.
Saí na foto todo vermelho, com o nariz escorrendo, rosto molhado de lágrima e uma cara retratando toda a dor e sofrimento de uma criança problemática aos 4 anos de idade.
Não sei que fim teve essa agenda, mas juro que se achar essa foto, posto no Twitter pra vocês rirem da minha cara.
Eu era uma criança muito babaca.